Quinta-feira, 1 de Maio de 2008

As pernas não valem de nada


Já não há tempo para escrever poesia
Nem vírgula ou ponto, te conto! Nem linha
Sobra a vontade, a minha
De poetizar, sozinha


Sonhos que se perdem no travesseiro
Nem sempre encontram caminho de volta
Espero, feito mãe preocupada
Que aquele, o mais rebelde
Volte pra casa


Boas idéias, de aborrecidas pelo descaso
Confundem em mim tempo, direção, compasso
Me esforço e me acho
E volto no ritmo, no primo e no trato


[Hoje...]
Não como, engulo
Não durmo, cochilo
Não grito, sussurro
Não choro, suspiro


Mas me faço sorriso, di-a-ri-a-mente
Pra provocar o medo e o perigo
Que se sente quando se vê
Que a vida, às vezes, corre da gente


Acontece que mais rápida que ela
É a filha que ela pariu
Que de tão maluca e sutil

...
Escolheu ao invés das pernas,
As asas...


PS: Foi Guimarães Rosa quem me ensinou “viver é perigoso”.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Pupilas


Os olhos são os primeiros a morrer
Quando não há mais coração
Os ombros carregam o peso
De uma vida na contramão

Vingança só alimenta
Gente de pupilas opacas
As minhas, de tão luminosas
Aviso, permanecerão intactas

Pode escolher novas caretas
Que das velhas já me cansei
E trata de avisar a corja, burra, mas bem treinada
Que é uma pena, mas me libertei!

Munida da minha coleção de palavras
Minha arma de festim
Converto em poesia
A indigestão que causou em mim

Virgem de maldade
Aprendo com a idade
E até arrasto saudade
Dos tempos em que nossas pupilas eram “iguais”

Crescer tem dessas coisas
Entender que gente pode trocar
De telefone, de cor de cabelo, de emprego
E até de brilho no olhar

(Crescer tem dessas coisas)
Entender que energia imunda
Mata mesmo e bem devagar
E que inimigos nos servem
Mesmo para não duvidar!

E até pra não perder o juízo
Que é uma tendência particular
De quem quer viver em abundância
Amar, amar, amar!

Os olhos ousam sobreviver
Mesmo sob incessante agressão
Minha alma carrega o peso
de uma borboleta, ao vento,
sempre na minha direção

PS: Duvide de pessoas sem brilho no olhar!

Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

Tentativa


Enquanto o carnaval durar
Vai ter melancia, vai ter muita gente
Dessas que vão comprar
O que eu não sei, mas a mamãe vende

É dois por quatro e três por cinco
Não sei, não entendo
Se me perguntam, repito,
Não minto

Enquanto o carnaval durar
Vai ter melancia, vai ter muita gente
Dessas que vão deixar
Mais latinha pr’eu catar
E mamãe bem mais contente

Três redondo tá o quilo
Se eu fosse todo de latinha
Pagavam sessenta por mim
Foi o moço que me disse
Me ensinou contar assim

Enquanto o carnaval durar
Vai ter melancia, vai ter gente
Dessas que gostam de fotografar
Pra depois tentar desvendar

o que a gente sente....

Parodiada


“(...) Como viver sentindo a passagem do tempo?
Do céu, do purgatório e do inferno ninguém escapa.
Sabem por quê? Porque hoje é carnaval!” (Benito Campos¹)


Quem me chamou foi o Barbosa
Que de curva em curva, perigosa
Me fez esquecer a prosa
E cantar sem violão

Fez companhia Tia Rosa,
Fez também a Maricota,
Que com direita ou com canhota,
Acertou meu coração

Que chora quarta de cinzas
do furdúncio que terminou
Com saudades guardo memórias
De cotias, de amoras
Das quais o Juca² falou

Flor na cabeça e saia de chita
Volto com ar de colombina
Pr'a minha rotina sem serpentina

Na praça, o sussurro das marchas
No ar,
balanço da alma suada
que o corpo carregou
(...)
Todos os deleites,
e as meras lágrimas sem causa,
A perdição melodiada
espelho puro dessa vida,
em feverereiro, parodiada


¹ Em 1984, o artista plástico Benito Campos, um dos fundadores do bloco Juca Teles, improvisou um discurso, decretando aos foliões que tratassem apenas de se divertir.
²Juca Teles: Personagem encarnado pelo poeta Bendito Souza Pinto em festas populares da cidade. Hoje o Bloco Juca Teles é o mais famoso do carnaval de São Luiz do Paraitinga.

Sábado, 19 de Janeiro de 2008

Horizonte particular


Feliz a senhora da floresta
Em seu horizonte particular
Deve chegar ao infinito
Sem um ínfimo piscar

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Pra esse canto do mundo


Pra esse canto do mundo...

Onde cor é mais cor
O negro profundo das águas
esconde dos filhos a dor

Pra esse canto do mundo...

Mais um desses brasis
Minorias se curvam
Aos caprichos de homens vis

Pra esse canto do mundo...

Em que barco virá
esperança e justiça
pra gente de lá

Pra esse canto ‘desmundo’...
Sem olhos imundos
Quando se olhará?

Mirim de mim


Mirim de mim
O vocabulário sem abstratos
Não limita expressão
Nos olhos pequenos e nos sorrisos careados
Graças e risos sem muita explicação

Os convites para o banho
Inspirava inibição
Eu que fiz, na 4ª série, aula de natação
Curiosidades engraçadas
Cabelo, pele, pêlo,
jeitos e seios
Mãozinhas apalpavam
procurando compreensão

Curumim e Cunhatain
Com ares de apgáua e de cunhã
Entre todas as culturais diferenças
Só me chamavam: “Irmã”


Observações:
Da língua geral, nhengatu
Curumim e Cunhatain: menino e menina
Apgáua e Cunhã: homem e mulher